Decerto, existe uma simplicidade no ofício. Há algo de mecânico no operar do cérebro. Você move as peças de um lugar para o outro, repete os mesmos processos, às vezes muda os métodos, mas em suma e ao fim do dia, o trabalho continua sendo o mesmo. Mas temo, sim, na verdade eu morro em medo de que esse movimento, de que esse desdém que venho guardando dentro de mim, vá acabar matando minha boa vontade, tenho pavor do dia em que irei acordar e olharei para os livros, olharei para o quadro, para as mesas, as carteiras e pensarei comigo "para que?". Acredito, na verdade, que o dia é hoje, mesmo que a decisão não seja minha. Sinto mínima, dentro de minha pessoa, a intimidade com o prazer de ensinar e me pergunto se devo, se vale a pena me levantar dessa maldita cama, para fazer este maldito curto caminho, até aquele maldito pequeno prédio, para ter de lidar com aquelas brilhantes e inquietas mentes pensantes que eu, logo eu, jamais deveria chegar perto. Por Deus! Quem foi o maldito que acreditou que eu poderia fazer isso? Um professor, tirar de mim um professor. Não, merecem mais do que eu, sempre mereceram, para sempre merecerão, e há de surgir, e creio que já surgiu, quem seja melhor que o infeliz que vejo todo dia no espelho.
Cheguei a cavalo meses atrás, junto de uma chuva terrível que vinha me seguindo há dias, e quando finalmente pude me estabelecer, neve caiu sobre nossas cabeças e tetos por semanas a fio. Matou as plantações, alguns dos animais, levou para o escuro minha égua, Clarice. Era minha única posse além dos livros, da espingarda e da roupa do corpo, isso, claro, se não contar o vício enquanto posse, mas quem sabe fosse eu parte de seu inventário, pois jamais tive poder o suficiente para controlá-lo, e, pensando bem, agora que posso, nunca tive poder nenhum para controlar qualquer aspecto de minha pueril existência nessa terra. Quem dirá ser capaz de controlar esses tantos jovens que me chamam de professor. Céus, chove mais uma vez? Creio que neve venha a seguir.
Me despedi do colégio sem muito tardar e sem deixar muitas desculpas além da inaptidão que trazia em meu cansado rosto. Era sabido entre meus colegas que eu tinha a noite como uma parceira de bebida, que a tomava pelo braço e com ela dançava até o amanhecer, e como sabiam meus colegas, logo sabiam os jovens, e como sabiam os jovens, logo sabiam seus pais, e como sabiam os pais, entendiam muito bem que não era de seu melhor interesse ter enquanto aquele que guiaria o futuro de seus filhos um forasteiro cuja única habilidade era se manter de pé mesmo depois de tomar sozinho três garrafas, e que triste habilidade era esta, pois tudo o que fazia, todo o varar da noite, toda a bebida, tudo para que eu pudesse simplesmente dormir, ter na cama o descanso, mas este vem apenas para aqueles que o merecem, não? E agora, sem trabalho, como poderia eu ser digno, como poderia eu ser qualquer coisa além de um bêbado. Não me lembro de ter chego ao bar, mas dou graças por estar onde estou. Malditos, tiraram de mim a única coisa que ainda tinha prazer em fazer. Claro, sim, reclamei agora pouco, e sei não ser o bastante, mas Deus, como era excelente ver no rosto do futuro o brilho do saber e a vontade de descobrir mais e mais sobre essa rocha em que flutuamos.
Aprendi a ler muito novo, logo em seguida, a cavalgar, aprendi a atirar pouco tempo depois, e juntas as três coisas, logo já fui capaz de me virar sozinho, e sozinho aprendi a beber, aprendi a enrolar o meu tabaco, aprendi a pechinchar preços menores por coisas que em verdade não valiam nada e vender por muito absurdos que valiam ainda menos, foi assim que consegui, na ordem em que disse, o casebre onde resido e o emprego que até hoje mais cedo tinha. Por Deus, me tiraram o ofício... Eu me tirei o ofício. Não! O vício, a bebida me tirou o trabalho... Não, Santo Deus, não! Foi a insônia, foi a maldita insônia, essa donzela cruel que me persegue no mundo desperto temendo que eu chegue no reino do sonhar, que medo tem essa dama? Que medo paira sobre tu? Que eu vá e veja, que eu enxergue além de mim mesmo? Que eu perceba que talvez, e só talvez, eu seja melhor do que acredito ser, que em algum lugar dentro desse emaranhado de fibras e sangue exista o potencial para fazer alguma coisa que valha a pena nesse mundo cruel? Eu já desperdicei meu dom, eu já desperdicei o ensinar, pois muito cedo aprendi a ler, e logo em seguida aprendi que os livros me mantinham acordado, e que quanto mais minha mente trabalhava, mais ansioso o meu coração ficava, e a inquietude me fez beber, e a bebida me trouxe até aqui. Não me lembro de ter saído do bar, tampouco me lembro de ter atirado o tijolo contra a janela do prefeito.
Engraçada a sensação da inconsciência, tem certa semelhança com o sono, mas não é o dormir, não, da inconsciência ninguém se recupera descansado, ela serve apenas para atrapalhar seus sentidos, tornar as coisas mais lentas, te fazer perder tempo, e quanto tempo eu já não perdi. Me jogam na cela atirado, sem meu chapéu, sem meu poncho, sem meus sapatos, e pelas barras da janela vejo que é noite, talvez a mais alta parte da noite, e de longe as nuvens escuras cobrem as estrelas com a promessa de uma chuva e a ameaça de uma tempestade. Quando primeiro cheguei à cidade, trouxe comigo a nevasca e problemas, agora, aqui, imagino, de braços dados com minha dama, que tipo de problemas essa nova nevasca trará. Me deito sobre a cama de meu encarceramento, e, maldição, é mais confortável do que a minha, fecho os olhos e o mundo gira sem me deixar pregá-los, mas o tempo passa, mesmo que eu não queira, talvez a noite toda, talvez o dia inteiro, talvez eu já esteja deitado aqui há anos. Me levanto e olho mais uma vez para o lado de fora, e de lá, com olhos amarelos e uma notável sede de sangue, a figura da morte me encara.
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