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E Tomando um Gole, Ele Disse

Há quem diga que a verdade muda, que o tempo a corrompe, corrói, destrói, a torna um pouco mais alusiva, distante, quiçá até menos poderosa, mas, e digo mas porque não sei muita coisa, e no meu ato de desconhecer me sinto no dever de discordar, acredito eu que a verdade seja uma só, imutável, incorruptível e, acima de tudo, minha! Minha verdade é a de que estou cansado, e o cansaço do qual falo é aquele onde os óculos pesam a face, mas retirá-los causa uma imensa dor de cabeça, quase que do tamanho do cansaço. Trabalho e trabalho e o tempo me esvazia, sinto as dores me cercarem até me tornarem mais fraco, mais flexível. Quem sabe o trabalho faça o mesmo com a verdade. Quem sabe a verdade se canse. Hoje ouvi uma história, e quem sabe ela fosse sobre cansaço. 

    Do lado de fora chovia, e bem na porta um homem observava o lado de dentro do bar com receio em seus olhos, talvez um enorme arrependimento, mas claramente queria entrar, quem sabe até precisasse. O chamei, fiz que sim com a cabeça, lhe dei um sinal de mãos, e assim ele veio se cobrir das águas dos céus para encher um copo com águas outras. Sentou-se à minha frente e vi em seus olhos cansados um dia de trabalho muito mais árduo que o meu. O colarinho estava aberto, e nele um fitilho branco. 

-Reverendo, não pensei no senhor aqui. -E de fato, jamais entraria um homem de Deus na casa de pessoas tão pouco santificadas. Mas ali jazia o homem com seu semblante quase morto. Não me deu resposta, apenas tocou a mesa com o dedo e o servi, como servia tantos outros, como sempre servi.

-Eu - Disse ele gaguejando, quase que sem vontade, claramente envergonhado de sua posição, transparecendo como um cristal o arrependimento de ter tocado a mesa. -Eu vim aqui porque pequei - E quieto e gago quem se tornou fui eu. Era impossível. Como podia o padre procurar refúgio em um lugar que sequer poderia ser chamado de abrigo? Se santificar naquilo de mais impuro que o homem tem de beber e ter comigo ao invés de... bem, ele era o reverendo, com quem mais teria? O filho do divino? Numa terça-feira? Dificilmente. 

-Conte o que quiser me contar, reverendo - Pedi, ainda secando copos, arrumando bancadas, com ouvidos afiados pois sabia que daquela boca sairia para mim uma história importante, de um pecado maior do que eu mesmo jamais poderia cometer. 


E tomando um gole, ele disse

    Ontem pela manhã acordei de um sonho lindo, onde água caía dos céus e limpava de meu corpo todos os erros, removia toda impureza e me tornava alvo como a pura neve, e eu caia junto às águas sobre a cabeça dos homens e eles também se purificavam através de mim. Me senti vigorado e saí do leito pronto para realizar qualquer feito, qualquer trabalho, escutar, ouvir, pregar. 
    Veio à igreja, um pouco mais tarde, um homem, velho senhor, de cabelos grisalhos e face doce. Já o havia visto muitas vezes antes, sentava-se à frente na casa do pai e rezava com muito clamor olhando a fronte do divino filho de Deus, sempre com muita ardência em seus olhos e temor na voz. Pouco havia escutado suas palavras, mas sabia pelo tom que suas orações carregavam fulgor. Veio até mim e sentou-se nos bancos antes de qualquer um outro chegar para a missa noturna, muito depois dos outros terem ido embora da pregação da manhã, não muito diferente de como venho a ti hoje. Dessa vez ele tinha um olhar abatido, carregava em sua vista um enorme cansaço, e quase sem forças desabou em meus braços em prantos. Suas lágrimas encheram meu peito de tristeza e eu disse a ele "Por que choras?" e de sua boca, entre os gemidos entristecidos ele respondeu "Porque pequei, ó, padre, e vim aqui lhe contar o meu pecado, confessar o meu crime, pedir pelo teu perdão", mas safo é aquele que entende que o remover da culpa não vem dos homens, mas sim dos céus, então o segurei pelas mãos e o olhando nos olhos respondi "Diga-me quem tu é, por onde andou, ovelha perdida, diga tudo o que tem de dizer e de Deus eu lhe trarei uma resposta"

E segurando minhas mãos ele disse

    Venho de muito longe para cá sempre que preciso, e a verdade é que sempre preciso vir para cá. Essa igreja é onde encontro refúgio, paz, onde vejo nos olhos de cada homem a verdade, e a verdade me liberta de estrondosos problemas que me cercam e afundam. Sabe, reverendo, eu já muitas outras vezes chorei solenemente aqui, na casa do pai, e meu pranto foi ouvido por outros homens não diferentes de ti, muitos e muitos anos atrás. Um dia meus cabelos não foram brancos, mas tinham a cor da aurora, e meus olhos eram belos como o céu, mas agora embranquecidos parecem às pessoas como as vistas de um cego, e elas enxergam neles apenas a morte, mas verdade seja dita, ainda vejo, enxergo, e muito bem! Enxergo para além das palavras dos homens e para além do que acreditam. 
    Há muito para ti, mas pouco para mim, ouvi aqui dentro um jovem se confessar, dizendo a Deus que havia roubado de uma mulher na calada da noite, e acreditando na santificada voz de outro homem não muito melhor que ele mesmo, rezou por um tempo e se sentiu mais leve, absolvido de seu crime, mas eu, ó padre, ainda via naquelas costas jovens o peso da culpa e sentia em seu sangue o cheiro do pecado. Pouco tempo depois esse jovem encontrou a noite eterna no sono horrível da morte. Outra vez ouvi de uma moça, contando aqui para quem ouvisse e pudesse perdoá-la, que há muito se deitava com um rapaz diferente de seu marido, e a ela disseram que rezasse e suas impurezas seriam limpas, mas eu vi, com estes meus olhos que muito enxergam, o peso da culpa em suas costas e senti o cheiro do pecado em seu sangue. Não muito depois a moça encontrou a noite eterna no sono horrível da morte. 

Contando tais coisas o velho parou de chorar, largou minhas mãos e continuou a dizer

    Eu vejo, padre, eu sinto o pecado de cada um e cada qual, eu sei quando o arrependimento não é verdadeiro e reconheço na alma de todos a impureza. Mas como o senhor bem vê, o tempo parece me alcançar, tal como alcança todos, e jamais pensei que chegaria até mim, mas agora me vejo contra o reflexo das águas e o homem que me encara de volta está cansado. Meus cabelos e orbes se embranqueceram e procuro o descanso do perdão, mas este vem apenas para aqueles que se arrependem, e eu decerto jamais me arrependi, afinal, faço apenas o meu trabalho, tal como tu faz o teu. Vejo que hoje acordou de um sonho poderoso, onde lavava dos homens as suas impurezas, pois bem, que agora o faça. O senhor me perguntou quem eu era quando cheguei, creio que agora saiba, e minha missão agora rogo a ti, faça dela como comanda o divino. 

Levantou-se então o homem e se foi, se curvando em reverência a mim, e eu o saudei com a cruz, tão natural era a mim aquele movimento, e ali notei pela primeira vez que seus pés eram descalços, e deles saíam sangue, seu cabelo era como o dia e de suas costas brotavam asas.

Disse-me tudo isso o reverendo, entre dois ou três copos de cerveja.

    Não sei se havia verdade naquilo que o padre havia me dito, se era um cântico da bíblia ou uma história moralizante para que me tornasse mais fiel. Para ser bem sincero nunca fui muito entendido dos assuntos celestiais, apenas fazia o trabalho que me era dado, pedia perdão quando errava e agradecia pelos acertos que me caiam. A verdade que vi naquele homem era apenas a do trabalho árduo, advindo de um dia difícil, fosse sua história verdadeira ou não, o seu pecado para mim ainda não era claro, então tremi a voz em perguntar - Reverendo, mas no que o senhor pecou? Não apenas ouviu do estranho a história? - E triste, marejando os olhos, ele me respondeu -Filho, acredito hoje que eu perdoei o diabo. 

Ele então se levantou, voltou à chuva e se foi. E ali fiquei, sozinho, e duvidei se a verdade havia mudado, ou que se sempre fora esta: que o diabo também chora, e que talvez Deus já tenha se cansado de o ouvir.




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