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Justiça, Liberdade e o Super Homem.

Liberdade e justiça não são conceitos novos para a humanidade, principalmente quando paramos pra pensar no tempo que passamos tentando aprimorar esses conceitos para deixa-los mais tangíveis, compreensíveis e alcançáveis, porém é fácil acreditar que essas ideias são imutáveis, e de certa forma sagradas, quando na verdade não passam de um construto de nossa imaginação, limitações impostas por uma sociedade que quer deixar os seus pensamentos centrados em coisas consideradas positivas, certas, reais, e, principalmente, justas aos olhos de outras pessoas.


Amarras sendo arrebentadas representando liberdade.

Os fundamentos, conceitos e ideias que cercam a liberdade têm sido explorados desde que o ser humano resolveu olhar para si mesmo como um ser racional. Questionamos a nossa liberdade para com os deuses, questionamos a nossa liberdade para com a sociedade e até chegamos a questionar a liberdade para conosco. No final das contas o primeiro resultado que você encontrará ao pesquisar "liberdade" no google provavelmente não terá relacionamento algum com uma explicação do conceito da liberdade propriamente dita, é capaz que em sua tela apareça a letra de uma música, fragmentos de um livro de auto-ajuda, ou até mesmo imagens que simbolizem o conceito.

"Liberdade, em filosofia, pode ser compreendida sob uma perspectiva que denota a ausência de submissão e de servidão. Ou sob outra perspectiva que é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional" isso é o primeiro fragmento de texto encontrado na página da wikipédia para o termo liberdade, e, de certa forma, não há nada de errado nessa explicação, mas ela claramente trás consigo espaço para debates. Frases como "[a liberdade] pode ser compreendida sob uma perspectiva que denota a ausência de submissão e de servidão" são capazes de nos levar a pensar em assuntos como o governo, as leis, a sociedade e o conceito de justiça. Se a liberdade de certa forma é não ser submisso, e nós, como seres sociais e racionais, nos encontramos submissos à governos, leis e parâmetros, será que realmente possuímos o advento da liberdade? Será que realmente somos livres? Filósofos e sociólogos debatem essas perguntas há anos e ainda não foi obtida uma resposta concreta para essas indagações, e o mais provável é que nunca teremos uma resposta concreta, e isso, essa dúvida que permeia e permeará por toda a eternidade, faz com que pensemos, será que isso é justo?


Representação da personalidade jurídica

Como seres humanos enxergamos a justiça como algo puro, algo que precisa ser guardado, e de certa forma, até temido, quando na verdade a justiça é extremamente maleável, bem mais do que imaginamos que ela seja. Um bom exemplo do mau uso da justiça como ferramenta se encontra no nosso dia a dia em casos de corrupção que assistimos em nossos jornais, lavagens de dinheiro que lemos em noticiários, e em furar a fila do almoço porque você está, claramente, com mais fome e pressa do que a pessoa a sua frente. Atos como esses acontecem todos os dias e, na maioria dos casos, saem impunes, podem ser noticiados, espalhados e até mesmo notados, mas apenas periodicamente veremos alguém recebendo a justiça necessária e equivalente ao ato cometido, e isso se deve ao fato de termos nos acostumado a ocasiões como essas, nós, ao decorrer do tempo, nos demos a liberdade de enxergar as coisas como sendo normais, e as pessoas mais "perversas", ou até mesmo "espertas", tomam vantagem dessa liberdade que damos a elas para aplicar a liberdade deles de praticar esses atos. Logo podemos colocar liberdade e justiça como assuntos e conceitos que se contrastam, ideias antagônicas que sempre procuram encontrar fraquezas uma na outra para que possam continuar lutando numa batalha incessante que nunca terá um vencedor definido.

A justiça pode ser considerada a limitadora da suposta liberdade que a nós é apresentada pelo governo, pela mídia e pela sociedade em que vivemos, a justiça é o símbolo de tudo aquilo que podemos e não podemos fazer, e além disso, é a representação cega e "equilibrada" das consequências que nossos atos deveriam ter, mas isso não torna a justiça uma coisa ruim, mas ela também não deveria ser vista com bons olhos, tal como sua própria representação nós deveríamos encarar a justiça de uma forma cinza, de uma forma cega, uma forma que não pende a nenhum dos lados da balança antes que um veredito final e justo seja tomado, porém, em realidade, nenhum homem é assim.


Superman: Paz na Terra, por Alex Ross e Paul Dini.

A humanidade sempre caminhou em passos largos para os caminhos corretos, até escorregar em seus próprios erros e estragar tudo. Um mesmo homem é capaz de iniciar uma guerra e pedir por paz, pregar a justiça e ser um traidor, torturar milhares e querer uma morte rápida, e isso se dá pela hipocrisia e falta de senso moral que cresceu conosco através de séculos e séculos de evolução social e tecnológica. O homem, no drama, é geralmente caracterizado em dois polos, em uma extremidade nós temos a figura do protagonista, o herói, defensor da liberdade e da justiça, e na outra extremidade nós temos o antagonista, o vilão, perversor e destruidor de nossos conceitos de liberdade e justiça, porém, na vida real não temos essa separação, nada é preto e branco em um mundo como o nosso aonde temos homens capazes de iniciar um apocalipse nuclear por conta de ameaças realizadas no twitter. Estamos longe de ter em nossas mãos uma concepção de 'homem perfeito', mas é óbvio que na literatura, tv, filmes, séries e jogos nós somos capazes de projetar as nossas ideias, sonhos e paixões, assim nasce o conceito do super homem, a criatura perfeita, defensor dos fracos e oprimidos, aquele que foi capaz de matar Deus.

Ao contrário do que muitos pensam a ideia do super homem não nasceu nos quadrinhos, mas sim do filósofo, compositor e poeta prussiano, Friedrich Nietzsche, que tomou como inspiração os pensamentos do profeta Zaratustra pra construir o conceito de um ser superior ao homem, um ser que ama a vida e o mundo, um ser que vive perigosamente, um ser que experimenta a vida ao seu limite, com maior intensidade e vontade, um ser que explora e busca por conhecimento, não por ser ignorante, mas pelo simples prazer de querer se tornar melhor. Ideias como essa foram sendo alteradas através do tempo e modificadas para figuras mais altruístas, figuras que, mesmo sendo melhores que a humanidade, ainda se preocupam com o bem estar social do ser humano 'inferior', e assim nasce o super herói como o conhecemos, assim nasce o super homem americano, a criatura que veio do espaço, criado em uma fazenda no Kansas, aquele que tem a força de um milhão de homens, capaz de pular sobre prédios em um único salto, assim nasce um símbolo de esperança para um povo que vive cometendo erros para com o próximo sem os enxergar, ou os enxergando, mas simplesmente não se importando o suficiente para fazer algo que concerte as suas ações.


Superman: Paz na Terra, por Alex Ross e Paul Dini.

Todos os conceitos que existem, todas as ideias que já foram tidas, toda descoberta encontrada, tudo aquilo que existe ao nosso redor é primordialmente bom, mas o homem, com suas mãos sujas, é capaz de corromper tudo aquilo que ele toca, transformando palavras em insultos, equações em armas e o amor em ódio. É claro que não somos perfeitos, e somos incapazes de atingir a perfeição, não somos deuses ou super-homens, somos pessoas normais que vivem o dia a dia tendo que lidar com indagações como "O que é liberdade?", "O que é justiça?", "Será que eu sou livre?", "A justiça me torna prisioneiro da sociedade?", e assim vamos, questionando a nós mesmos, questionando nossas escolhas, questionando até mesmo nossas respostas, querendo nos espelhar a dogmas e ideais inalcançáveis, querendo ter liberdade em uma sociedade obstruída por mentiras e uma justiça corrompida, e principalmente nós queremos nos espelhar a criações da mídia, queremos ter a vida perfeita que vimos na novela, queremos o final feliz que o livro nos mostra, queremos o amor indistinguível dos filmes, queremos a habilidade de voar do super-homem, mas esquecemos que ele não é um deus, ou um alien, ou até mesmo um super herói, ele é apenas um rapaz do Kansas querendo fazer a coisa certa. 

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