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A Teoria Da Tristeza Infinita

A estranheza do dia a dia e da convivência social cerca o ser humano com questões impossíveis de serem respondidas, mas mesmo assim nós sempre acabamos por fabricar respostas convenientes o suficiente para essas perguntas, unicamente para que possamos evitar certos diálogos que categorizamos como desnecessários, inconvenientes ou até mesmo chatos, pela falta de um termo melhor. Porém, entre rios e rios de conversas desinteressantes e interações sociais que preferivelmente poderiam ser evitadas, nós nos encontramos perdidos em uma das muitas perguntas que de tanto serem feitas acabam perdendo o seu real valor e significado, especificamente eu posso citar a rainha de todas as questões existenciais: Você está bem? Essa pergunta pode tomar diversas formas, indo de um comum "Tudo bem?" até um simples "Eai?", no entanto a semântica e a gramática proposta pela frase não consegue fugir do real significado trazido por esse questionamento, que no caso seria a definição própria de tristeza e felicidade.

O que é ser feliz? O dicionário define felicidade como 'qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento e bem-estar', porém essa definição não passa disso, a disposição de ideias que envolvem a explicação de uma palavra comum usada comumente, quando na verdade a felicidade não é algo que possa ser definido, não de maneira tão simplória. A felicidade é um conceito que permeia o tempo e a história humana tomando diversas formas distintas, formas essas que se escondem de forma sutil pelo nosso cotidiano muitas vezes corrido e melancólico. A felicidade se apresenta como um escape momentâneo para a criatura humana que se vê em um momento até então comum, porém não podemos tratar o corriqueiro como um estado de espirito da mesma forma que tratamos a felicidade ou a tristeza, em um mundo binário como o nosso nós somos obrigados a escolher um dos dois caminhos apresentados a nós, a não ser que sejamos capazes de desconstruir esses conceitos até o ponto em que ambos se tornem uma coisa só, introduzimos assim então a teoria da tristeza infinita.

Peanuts (1983-1986)


O que é ser triste? O dicionário define tristeza como 'qualidade ou estado de triste; estado afetivo caracterizado pela falta de alegria, pela melancolia', mas o que exatamente podemos retirar dessa afirmação nem um pouco poética? O que há de tão notável nessa definição para que ela seja mencionada? É de fato muito simples, como termos, tanto a felicidade e a tristeza são caracterizadas como qualidades, o que gera o questionamento, o que exatamente é uma qualidade? De acordo com o dicionário o termo qualidade é definido como 'propriedade que determina a essência ou a natureza de um ser ou coisa',  logo, essencialmente, o ser humano precisa esbanjar determinada qualidade, porém o real problema se torna aparente quando tentamos determinar esse tipo de característica, visto que cada criatura consciente tem sua própria versão da felicidade e sua própria versão da tristeza. Vivemos em nossos universos particulares dentro de um universo ainda maior que quando observado de um ponto de vista individual se torna extremamente insignificante ou incrivelmente importante. A dependência de um ponto de vista para que possamos determinar conceitos voltados para essas qualidades apenas prova que não há uma real diferença entre a tristeza e a felicidade, visto que aquilo que eu considero como sendo algo alegre para ti pode ser algo considerado melancólico, e assim entramos num processo cíclico de indagações que podem nos enlouquecer de forma completa ou abrir nossos olhos para uma realidade que não somos capazes de entender.

O ser humano quando nasce é retirado de um lugar de aconchego, segurança, escuridão e calor para outro frio, melancólico, real e brilhante demais, por isso nossa primeira reação é fechar os olhos para a clareza de estarmos agora habitando uma realidade assustadora, e então chorar, e isso apenas acontece pois fomos retirados de tudo aquilo que para nós representava um senso de segurança; mas ao sermos colocados de volta ao colo de nossa mãe temos determinado um falso sentimento de normalidade, que indica que as coisas ficarão bem mesmo que de fato elas venham apenas se tornar mais difíceis a partir desse ponto. Nasce assim o paradigma do bem estar, a nossa vontade de alcançar aquilo que nos lembre ao máximo a primeira sensação de conforto que somos capazes de sentir assim que saímos do ventre de nossa mãe. De forma subconsciente nós surgimos ao mundo como criaturas, em sua essência, melancólicas por definição, e a partir disso temos como objetivo principal de nossas vidas encontrar aquilo que para nós represente o nosso conceito individual de felicidade, o que pra muitos pode ser considerado um problema, mas em realidade é apenas um dos muitos atributos que enaltece o ser humano como a criatura viva mais capaz que já ousou pisar na face da Terra.


Peanuts (1983-1986)

Podemos comparar a ideia da vida com algo que seria uma enorme planície, essencialmente, melancólica, e ao findar dessa planície temos o final de nossa trilha (aka: a morte), porém, ao decorrer de nossas planícies nos deparamos com diversos obstáculos que unicamente servem para dificultar a nossa jornada, depressões que nos afundam e fazem com que tenhamos maiores dificuldades com o decorrer de nossa jornada, pequenos morros que tomam nosso tempo com a esperança de uma recompensa, mas não passam de farsas e felicidades momentâneas, e por fim, espaçadamente temos as nossas montanhas, grandes conjuntos de rochas e pedras quase impossíveis de serem escaladas, enormes massas de terra que podem facilmente ser circuladas e evitadas, porém elas apresentam pra nós um desafio, elas nos prometem algo que, se estivermos dispostos, pode nos proporcionar a nossa troca essencial, ou apenas manter as coisas melancólicas como até então já eram. Essas montanhas apresentam dificuldades, perdas, momentos que fazem com que queiramos desistir de tudo e simplesmente nos jogar do topo até uma das depressões mais baixas, mas se nós formos capazes de alcançar o pico somos agraciados com a visão de nossa planície, somos capazes de enxerga-la como ela realmente é, um canvas em branco, um espaço a ser explorado, algo que em sua essência, por mais que seja melancólico, é revigorante e repleto de memórias que vão fazer com que nosso caminho valha a pena ser trilhado, as nossas montanhas são representantes do colo de nossa mãe, nosso paradigma do bem estar, elas nos obrigam a contemplar a nossa tristeza infinita e tomar por nós mesmos a decisão de definir naquele momento o que será felicidade e o que não será, elas nos permitem olhar no fundo dos olhos do abismo e tomar como verdadeira a nossa realidade, seja ela qual for.

No final das contas a felicidade e a tristeza não são coisas completamente opostas, não são conceitos antagônicos ou termos que podem ser tratados com desdem, mas também não são sagrados ao ponto de não poderem ser contemplados, estudados e até mesmo alterados para que sejam parecidos com aquilo que gostaríamos que eles fossem. A felicidade e a tristeza são qualidades presentes em todos os seres humanos, qualidades com suas características únicas, propriedades individuais e sensos de realidade de certa forma distintas, mas ambas apresentam uma similaridade inegável, elas são essenciais para que sejamos humanos, para que possamos entender o nosso conceito individual de vida, para que possamos atravessar a nossa planície, sempre com um sorriso no rosto e a tristeza embaixo do braço.

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