Pular para o conteúdo principal

Música, Evolução e Depressão

Desde o inicio da civilização humana, o homem tem buscado novas maneiras de se proteger e proteger ao próximo. Seja inventando novas ferramentas, encontrando novos abrigos ou revolucionando a forma com que se comunicam, a criatura que hoje conhecemos como ser humano trilhou um enorme caminho até chegar aonde chegou e atingir o patamar que tem hoje em dia, e essa evolução se dá pelo simples fato de que sobrevivemos.

Charles Darwin foi um dos primeiros e principais pensadores a tornar pública e famosa a teoria do evolucionismo em seu livro a Origem das Espécies, que se baseia no principio da seleção natural, que pode ser resumido em poucas palavras como "o mais forte sobrevive" ou "sobrevivência do mais apto", segunda definição essa dada pelo filósofo e cientista britânico Herbert Spencer responsável por ser um dos defensores do Darwinismo Social, corrente filosófica essa que servia de desculpa para que no século XIX fosse pregado o racismo na comunidade europeia.
Revolucionária na ciência e na biologia essa teoria levou gerações de pesquisadores a seguir buscando por provas de sua veracidade, porém, em um ponto de vista social e psicológico, se interpretada de diferentes pontos de vista, ela pode adquirir distintos significados, podendo até gerar questionamentos como "o que ou quem seria aquele mais forte?", "o que é necessário para se tornar o ser mais forte?" e até mesmo "o que pode ser identificado e definido como fraqueza dentro de um ponto de vista social?".

Charles Darwin (Edição) 


Em termos atuais é notável que vivemos em uma sociedade fragilizada e sequelada por anos e anos de incompreensão, abuso e intolerância, seja de forma política, econômica ou social. Durante décadas sofremos com uma defasagem enorme da distribuição e propagação de conhecimentos que deveriam ser comuns e entendidos por todo mundo a esse ponto, porém aspectos religiosos, partidários, midiáticos, entre muitos outros, pregaram por séculos uma visão humana deturpada que deveria ser buscada como um padrão. Esse problema consequentemente fez com que enxergássemos certos aspectos naturais como aberrações ou fraquezas, fazendo com que nascessem ideias de preconceitos étnico e cultural, homofobia, machismo, e entre eles, porém menos notadas, o descaso que muitos tem com doenças psicológicas. Dados muitas vezes como loucos, pessoas que sofrem com ansiedade, depressão, síndrome do pânico, distimia, entre muitas outras enfermidades psiquiátricas, são tratados em diversos casos como "frescas" por suas doenças supostamente não apresentarem nenhum aspecto físico, o que em realidade é uma informação errônea. Distúrbios psicológicos muitas vezes são responsáveis por causar problemas digestivos, dores de cabeça, baixa imunidade, entre muitos sintomas que podem acabar evoluindo para doenças mais sérias que mutias vezes,  infelizmente, podem levar a morte, e muitas dessas mortes acontecem pelo fato de que diversas pessoas ainda tratam esses distúrbios como bobagem. É claro que existem instituições e pessoas que se dispõe a ajudar indivíduos que sofrem com esses tipos de doença sem nenhum envolvimento monetário, porém muitas vezes não recebem o devido crédito e atenção que merecem, principalmente por não terem espaço suficiente na mídia atual, porém isso parece estar mudando por conta de diversos artistas que têm trazido à tona assuntos como depressão, ansiedade, e até mesmo suicídio. Como exemplo, a música "Eu tô bem" do cantor Luiz Lins trás em sua letra e melodia um tom melancólico que é capaz de expressar de maneira muito fiel como diversos indivíduos sofrem com esses tipos de distúrbios e pensamentos, além de deixar em sua descrição de vídeo no youtube links referentes ao CVV (Centro de Valorização da Vida), organização essa que presta ajuda a pessoas que estão passando por momentos difíceis e que tem tido pensamentos de auto-mutilação, fornecendo assim um serviço social importantíssimo.



É claro que o estilo musical e voz arrastada podem não atender o gosto de todos, mas é notável que para alguns "Eu Tô Bem" representou algo que muitos músicos já fazem desde que a música é música, falar de sentimentos através de um meio não muito óbvio e muitas vezes subjetivo.
A música como ferramenta pode atender milhares e milhares de funções, desde um adorno comercial que ajuda marcas a vender seus produtos até uma maneira de unir pessoas para lutar pela paz mundial (vide, "We Are The World"), tudo depende da maneira com a qual nós enxergamos, ou melhor dizendo, interpretamos aquilo que estamos ouvindo dos músicos que acompanhamos e conhecemos.

Fundada no ano de 2009, a banda o "O Terno", liderada por Martim Bernardes, é uma das maiores bandas do gênero indie brasileiras da atualidade, tendo milhões de visualizações em seus clipes no youtube e um grande reconhecimento de seus fãs a ponto de já terem se apresentado no Lollapalooza no ano de 2018 para milhares de pessoas. Tendo em seu catálogo um EP e três álbuns, a banda conseguiu sucesso quase que imediato em seu inicio com um tom de certa forma hilariante e músicas que não se levavam muito a sério, evoluindo aos poucos até se tornarem mais profundos, o que levou ao lançamento do terceiro álbum da banda, de 2016, "Melhor Do Que Parece", apresentando 12 músicas e um ritmo um tanto quanto diferente de seus projetos anteriores. Gradativamente se tornando mais depressivas e "estranhas" as canções vão contando histórias sobre términos de relacionamentos, sentimentos de culpa e solidão, orgulho, amor, entre outros, levando o ouvinte a acreditar que todas as experiências tidas durante os 40 minutos que se passaram se resumirão em contos de tristeza, até que a última faixa, que dá título ao álbum, se inicia. Começando lenta e melódica, com poucos instrumentos ao fundo, a música se inicia calma e ainda mais deprimente que as outras, apontando diretamente aos problemas que o eu lírico parece estar passando, "Eu ando muito insatisfeito, nada me agrada mais, não consigo ver um filme, ouvir um disco, um livro eu claramente não vou ler, vou procurar em todo canto até achar onde eu perdi, minha vontade, meu desejo, o prazer de conseguir, e a paciência que eu preciso pra curtir" diz ele melancólico e pensativo, e repete algumas vezes seus problemas e questiona "Eu tenho achado tudo chato, tudo ruim, será que o chato aqui sou eu?", e assim a música segue, até que de repente os instrumentos são cortados e apenas a voz de Tim pode ser escutada ecoando, dizendo três pequenas frases que mudam completamente o tom da canção, a virando de cabeça pra baixo e a tornando merecedora de seu título, "Tudo está melhor do que parece, eu olho e vejo tudo errado, faz tempo que está tudo certo".  Se tornando triunfante em seus momentos finais, a faixa de seis minutos é uma jornada pelos pensamentos de uma pessoa que se viu em um momento de fadiga emocional ao ponto de não ter certeza se o catalizador de seus problemas era ela mesma, até que nota a simplicidade das coisas ao seu redor e entende que a falta de controle do humano sobre o mundo não é uma fraqueza e sim um fato, aceitando assim que as coisas, mesmo que no momento não estejam tão bem, podem se tornar melhor do que aparentam ser.

Banda "O Terno".


Tanto a música, quanto a literatura ou qualquer forma de arte, podem ser interpretadas de milhares e milhares de formas, por milhares de pessoas diferentes, com vivências, conhecimentos e opiniões diferentes que muitas vezes se cruzam ou se antagonizam, causando discussões que na maior parte do tempo são pertinentes e levam à conclusões saudáveis e novos aprendizados. Inevitavelmente a arte une as pessoas, seja para que compartilhem suas experiências ou para que apenas curtam aquilo que os foi apresentado e que os traz sentimentos que todo humano sente.
É normal se sentir só, é normal se sentir triste, é normal se sentir ansioso, melancólico, depressivo, o que não é normal é ter o poder de ajudar as pessoas que se sentem assim e não fazer nada.
É importante ter em mente que o mínimo de ajuda pode fazer a maior diferença na vida de alguém, então ofereça um ouvido amigo, pergunte se esta tudo bem, ajude naquilo que for possível, porque no final das contas as coisas podem melhorar, e de certo irão melhorar.



Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

E Tomando um Gole, Ele Disse

Há quem diga que a verdade muda, que o tempo a corrompe, corrói, destrói, a torna um pouco mais alusiva, distante, quiçá até menos poderosa, mas, e digo mas porque não sei muita coisa, e no meu ato de desconhecer me sinto no dever de discordar, acredito eu que a verdade seja uma só, imutável, incorruptível e, acima de tudo, minha! Minha verdade é a de que estou cansado, e o cansaço do qual falo é aquele onde os óculos pesam a face, mas retirá-los causa uma imensa dor de cabeça, quase que do tamanho do cansaço. Trabalho e trabalho e o tempo me esvazia, sinto as dores me cercarem até me tornarem mais fraco, mais flexível. Quem sabe o trabalho faça o mesmo com a verdade. Quem sabe a verdade se canse. Hoje ouvi uma história, e quem sabe ela fosse sobre cansaço.      Do lado de fora chovia, e bem na porta um homem observava o lado de dentro do bar com receio em seus olhos, talvez um enorme arrependimento, mas claramente queria entrar, quem sabe até precisasse. O chamei, fiz qu...

(Prólogo a) Um Conto de Lobisomem

Decerto, existe uma simplicidade no ofício. Há algo de mecânico no operar do cérebro. Você move as peças de um lugar para o outro, repete os mesmos processos, às vezes muda os métodos, mas em suma e ao fim do dia, o trabalho continua sendo o mesmo. Mas temo, sim, na verdade eu morro em medo de que esse movimento, de que esse desdém que venho guardando dentro de mim, vá acabar matando minha boa vontade, tenho pavor do dia em que irei acordar e olharei para os livros, olharei para o quadro, para as mesas, as carteiras e pensarei comigo "para que?". Acredito, na verdade, que o dia é hoje, mesmo que a decisão não seja minha. Sinto mínima, dentro de minha pessoa, a intimidade com o prazer de ensinar e me pergunto se devo, se vale a pena me levantar dessa maldita cama, para fazer este maldito curto caminho, até aquele maldito pequeno prédio, para ter de lidar com aquelas brilhantes e inquietas mentes pensantes que eu, logo eu, jamais deveria chegar perto. Por Deus! Quem foi o maldi...

(Não é) Um Conto de Lobisomem

 A insônia faz coisas terríveis com a mente, não só do coitado insone que sofre com as noites em claro, mas também dos infelizes que o cercam e têm de ouvir os murmúrios incansáveis de um maldito atordoado que mal consegue se levantar, mas cuja mente viaja a mil e um lugares, e muitos onde nunca pode antes pisar os pés. A antecipação, a ideia de um futuro possível, os erros passados, todos esses sentimentos impetuosos fazem companhia à mente desperta. Ela, e digo ela pois a insônia é uma dama, é perturbadora, voraz, e insaciável em sua fome, até que enfim consuma todo o pensamento, toda a lógica e toda a sensatez, deixando apenas loucura em seu lugar, ela não finda em seu banquete, e minha mente ultimamente tem estado repleta de pensamentos para que ela possa se deliciar.          Já fazem duas noites que não consigo pregar meus olhos quando me deito, e três noites desde que fui encarcerado. Foi na noite passada que vi o cão, e de lá pra cá, talve...