Conversando com alguns amigos, e isso foi recente, me veio a mente um pensamento absurdo, o que muitas vezes acontece durante os meus dias, e este foi o de que, se, por algum acaso, as ervilhas todas sumissem da face da terra, acabassem em um único instante, para jamais serem plantadas e colhidas novamente, nós não nos daríamos conta, não sentiríamos a diferença, pois afinal de contas, o que diabos é a ervilha? É pouca coisa em qualquer aspecto! Diminuta em tamanho, nunca se excede em quantidade, não faz parte do prato favorito de ninguém e tampouco é a primeira opção de sopa. A ervilha está ali, pura e simplesmente ali, não é ignorada se vista, mas também não faz alarde algum para chamar atenção. Esse meu pensamento ridículo se seguiu de outros, onde pensei em leguminosas de mais importância, algumas que de fato trariam balburdia e escândalo ao mundo se de repente fossem embora, "o tomate", disse, "se acabasse o tomate, a Itália acabaria junto", a batata então, nem se fala! Se a batata de nós fosse tirada, creio que não teríamos mais um planeta para viver, meus amigos riram.
A noite se foi e fiz minha volta para casa, passando todo o caminho pensando comigo mesmo, buscando em minhas memórias, quando havia sido a última vez em que tinha comido ervilhas. Curioso, sei que de fato às comi várias vezes, conheço o gosto, a textura, a aparência, claramente, mas mesmo assim, me escapa o último momento em que a mim me serviram um prato com ervilhas, pois eu decerto não as preparo pra mim e sequer as compro, seria por que não gosto delas? Não! Simplesmente não penso nelas, tal como não penso na memória de consumi-las. Estranho como são nossas memórias, a seletividade de cada uma, a forma com que nossa cabeça se desdobra em tantas delas por dia, algumas pertinentes, algumas ridículas, e outras, e estas são poucas, que nem sabíamos ter! Que loucura é se lembrar de algo esquecido, ter em mente a imagem clara de um momento que não só parecia, mas estava perdido, o que não me surpreende, já que somos capazes de perder coisas em plena vista, não encontrar as chaves que estão no bolso ou procurar o celular usando sua própria lanterna. Parecemos ter o senso de permanência de um peixinho dourado e, ao mesmo tempo, a capacidade de guardar em nós todo um infinito de possibilidades e lembranças.
Lembro-me muito claramente como foi receber a notícia do falecimento de minha avó, me lembro do choque, me lembro de abraçar meu pai e não conseguir chorar, mas não tenho ideia do que passava na TV naquele dia, não consigo configurar a imagem do que eu estava vestindo na hora, mas me recordo da sensação, do abalo sísmico que ocorreu dentro de mim naquele dia, se fecho os olhos e paro por um minuto consigo sentir tudo de novo, mas por mais que eu passe horas na mesma posição, não sei que sapatos usava quando abracei meu primo naquela mesma tarde. Batatas e ervilhas.
Algumas memórias servem para não ser lembradas, elas vêm para nós e somem logo em seguida, não deixam um gosto ruim na boca, mas não marcam um território tão importante, são pequenas, as vezes podem até ter um certo significado, mas não nos mudam por completo, fazem parte de um contexto e um universo muito maior de coisas que nos cercam, são um elemento claramente formativo que nem sempre damos falta, mas que com o tempo notaríamos a falta de sua presença. Eu claramente não teria saudades das ervilhas, mas sei que alguém teria, da mesma forma que quem não a conhecia, não pode sentir saudades de minha vó, mas eu com certeza sinto.

Sensacional!!! Você é um artista sem precedentes! Parabéns
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