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Breve Confissão

Existem coisas que fazemos para os outros e coisas que fazemos para nós mesmos. Sendo o eu o centro de seu próprio universo, é de se surpreender um pouco que, na maioria das vezes, façamos coisas estupefatas e ridiculamente graciosas pelos outros, mas não para si, pegamos esses outros seres que não habitam nossa cabeça e damos a eles as rédeas dos nossos pensamentos e o produto de nossas energias. Por que? 

    Os últimos seis meses, contando, claro, do dia em que escrevo isso, foram longos e estressantes para mim em níveis que nunca tinha vivenciado antes. Todo mês, dia e hora se passaram formando dentro de minha cabeça dúvidas, inseguranças, incertezas e, em raras ocasiões, certezas, e por mais que fossem poucas, foram estas últimas as mais importantes para mim. Vivi um momento de afastamento total de mim mesmo, observei o mundo com uma perspectiva diferente da que tive por um longo tempo, mas que ainda me parecia familiar, e esta foi a perspectiva de uma pessoa passando por um episódio depressivo seríssimo (que durou algo como dois meses, talvez três, mas juro que estou muito melhor agora, acredite). Tive de aprender alguma coisa depois de todo esse 'bafafá', e não é que eu tenha escolhido o que aprendi, mas tive uma interpretação que julguei talvez ser loucura, e gostaria de saber se é isso mesmo: o amor pode sim acabar (sim, perdão, esse texto é sobre amor). 


Tirinha sobre memórias que eu mesmo fiz, linda né?

      Ontem, do dia em que começo a escrever isso, claramente, eu estava acompanhado de amigos pelo qual tenho muito afeto, e, conversando, eles perceberam que eu sempre apresentei em mim um problema complicadíssimo que se disfarça de uma coisa excelente, que é se entregar demais sempre que consigo, e continuar tentando se entregar até quando não é viável. O problema se dá na reciprocidade das coisas, pois se eu "amo demais", quer dizer que aquilo para qual eu estou entregando os meus esforços "me ama de menos". Então o que fazer? 

    Se dentro de nós existe muito amor é necessário que ele seja distribuído em mais de uma coisa, não podemos sobrecarregar o outro nem nós mesmos com responsabilidades absurdas auto impostas simplesmente porque é mais fácil despejar tudo em um copo só. Não, amar requer força, requer resiliência, requer uma mente sóbria o bastante para perceber quando que o amor acaba. 

    Ninguém decide ser professor por causa do dinheiro, porque não paga tão bem assim, ninguém decide entrar em uma sala de aula para ensinar porque é fácil, tanto porque é ridiculamente difícil, todo e qualquer um que se apronta pela manhã e vai até um colégio para tentar mostrar ao outro novas perspectivas o faz por amor, e esse amor o torna excelente, mas é possível que ele não dure pra sempre, existe sim a enorme possibilidade de que as coisas não conspirem para o seu bem, que as coisas não deem tão certo quanto esperado e que o amor que ali existia deixe de brilhar, e quando isso acontece, é porque é hora de deixar ir, porque esse copo já se esvaziou... Mas outros podem ser preenchidos. 

    Eu hoje sei que não estou pronto para amar de uma certa forma, e reconheço que nunca deixei de amar em muitas outras, e não é que este primeiro tipo de amor tenha acabado, mas infelizmente eu perdi meu copo, então, por enquanto, vou guardá-lo aqui comigo, distribuído em muitos outros, até que eu finalmente possa beber de novo. 

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