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Ainda Sobre o Amor

 Maldito vício, maldito vício é o amor, esse credo, esse momento, nada além disso, me sinto pouco em sua presença, me mata, me corrói, me torna pequeno, me faz mal, muito mal, me adoece, sinto em minha alma o podre de suas palmas pegajosas, amarrando um nó no meu coração, o guardando para alguém, que muito provavelmente não o merece. Mas ótimo, falo também como se merecesse, como se meu reflexo tivesse a coragem de olhar pra mim, como se eu pudesse desafiar os céus, Deus, Zeus, Odin, quem fosse, e dizer que sou digno! Como se eu fosse!

    É um vício o amor, quem sabe o pior deles, pois já nascemos viciados, já nascemos envelopados de suas carícias, de suas falsidades, de suas pretensões e faltas. Pobres coitados, amados, amantes, amáveis alcoólatras, alicerces de milhares de problemas, somos isso, somos amores, somos os vícios, os viciados e os problemas. 

    Se um dia disse que o amor acaba, peço perdão, pois errei, ele não tem coragem o bastante para se findar, se esconde atrás de contextos, entre os dedos de alguém, no profundo do mar, no azul do céus, mas não é bravo o bastante para te atacar quando você se sente forte, espera sua fraqueza, seu momento mais calmo, espera sua paz para iniciar sua guerra. 

Aquiles lamentando a morte de Pátroclo, de Gavin Hamilton (1760)

    Na distância eu consigo enxergar o amor, mas já passei tanto tempo longe que temo me aproximar, o medo de voltar ao vício, o medo de cair em tentação, o medo de me deixar levar, sentir o cheiro de seu cabelo, ver o imenso castanho de seus olhos, escutar sua voz cantando, cair, me machucar, corroer, amar, que inferno seria amar de novo, e que doce inferno seria amar de novo. Não mereço, não sou digno, já escolhi meu vício e ele é outro. Como disse a um amigo, quem ama não fuma. 

    Ainda sobre o amor, queria dizer, que dos vícios ele é o mais complexo e dos sentimentos o mais simples. É fácil amar, como é fácil exercer qualquer vício, o difícil é deixá-lo, abandonar as memórias, se limpar da sujeira, perder o doce da boca pra dizer que não, "deixarei de amar!". Nesse momento não amo, gostaria, mas não tentarei, ainda não estou em paz, ainda não estou seguro de mim, ainda não pareço bom o suficiente para que venha me atacar com suas garras o terrível amor, então não, não hoje, nem amanhã, tampouco depois... Talvez segunda-feira que vem. 

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