Pular para o conteúdo principal

Sobre o Amor e o Tabagismo

Já não amo tem um tempo, e não digo o amor geral, claro que não, falo do amor romântico, aquele que temos por um outro, aquele amor de casar e afins. Não me orgulho de não amar, pois me lembro de ser muito bom, me lembro de gostar, apreciar cada segundo. Digo que amava, e quem sabe eu ainda ame o amor.  

    Já fumo há algum tempo, e disso também não me orgulho, não sou fã do cheiro em minhas roupas ou em meu cabelo, não aprecio o gosto em minha boca, não me orgulho do vício, do penar atrás disso, do depender da sensação. Detesto me sentir ansioso e ver isso como uma saída, como a única opção. 

    Há quem diga que o amor é uma escolha, mas não, é impossível que seja, pois quem escolheria não amar? Quem escolheria uma vida sem essa sensação? Aqueles que sentiram muito mais a dor do que o amor em si, sim, esses talvez, mas mesmo assim, como é bom o amor, como é delicioso o amar, como é ótimo o cheiro que deixa em sua roupa, em seu cabelo, o gosto que deixa em sua boca, como é preciosa a ansiedade de querer se sentir amado. 

    Não lembro de escolher fumar, lembro de escolher parar várias vezes, lembro de não conseguir. E lembro do não conseguir se tornar exaustivo, uma sensação péssima que me levava a um pessimismo maior do que o que já possuo. Me sentia, me senti e talvez até me sinta possuído por algo pior que eu mesmo, é monstruoso, é repugnante, é incrível. 

    Já tentei parar de amar, não consegui, não durante as tentativas, mas eu deixei de amar, agora mesmo não amo, e daria de tudo pra amar de novo, faria o impossível, me tornaria pior, melhor, monstruoso, incrível, deixaria qualquer coisa, até mesmo..

    Se hoje eu parasse, por um acaso do destino, por algo que me ocorresse, por um filme que eu visse ou alguém que eu conhecesse, não sei dizer ao certo se ficaria feliz, de fato não sei. Se agora mesmo eu parasse, se as coisas todas se armassem para uma mudança tal, imagino que minha vida ficaria de cabeça pra baixo de um jeito que nunca antes ficou. Mas são só hipóteses, eu não vou parar, não agora... Mas como eu poderia saber? É impossível, até mesmo imaginar a situação se torna meio ridículo. Eu, a essa altura do campeonato, simplesmente deixar de não amar

Eu ainda fumo, gostaria que não, mas fumo
Ainda não amo, mas gostaria que sim, não amo
Mas eu vou parar

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E Tomando um Gole, Ele Disse

Há quem diga que a verdade muda, que o tempo a corrompe, corrói, destrói, a torna um pouco mais alusiva, distante, quiçá até menos poderosa, mas, e digo mas porque não sei muita coisa, e no meu ato de desconhecer me sinto no dever de discordar, acredito eu que a verdade seja uma só, imutável, incorruptível e, acima de tudo, minha! Minha verdade é a de que estou cansado, e o cansaço do qual falo é aquele onde os óculos pesam a face, mas retirá-los causa uma imensa dor de cabeça, quase que do tamanho do cansaço. Trabalho e trabalho e o tempo me esvazia, sinto as dores me cercarem até me tornarem mais fraco, mais flexível. Quem sabe o trabalho faça o mesmo com a verdade. Quem sabe a verdade se canse. Hoje ouvi uma história, e quem sabe ela fosse sobre cansaço.      Do lado de fora chovia, e bem na porta um homem observava o lado de dentro do bar com receio em seus olhos, talvez um enorme arrependimento, mas claramente queria entrar, quem sabe até precisasse. O chamei, fiz qu...

(Prólogo a) Um Conto de Lobisomem

Decerto, existe uma simplicidade no ofício. Há algo de mecânico no operar do cérebro. Você move as peças de um lugar para o outro, repete os mesmos processos, às vezes muda os métodos, mas em suma e ao fim do dia, o trabalho continua sendo o mesmo. Mas temo, sim, na verdade eu morro em medo de que esse movimento, de que esse desdém que venho guardando dentro de mim, vá acabar matando minha boa vontade, tenho pavor do dia em que irei acordar e olharei para os livros, olharei para o quadro, para as mesas, as carteiras e pensarei comigo "para que?". Acredito, na verdade, que o dia é hoje, mesmo que a decisão não seja minha. Sinto mínima, dentro de minha pessoa, a intimidade com o prazer de ensinar e me pergunto se devo, se vale a pena me levantar dessa maldita cama, para fazer este maldito curto caminho, até aquele maldito pequeno prédio, para ter de lidar com aquelas brilhantes e inquietas mentes pensantes que eu, logo eu, jamais deveria chegar perto. Por Deus! Quem foi o maldi...

(Não é) Um Conto de Lobisomem

 A insônia faz coisas terríveis com a mente, não só do coitado insone que sofre com as noites em claro, mas também dos infelizes que o cercam e têm de ouvir os murmúrios incansáveis de um maldito atordoado que mal consegue se levantar, mas cuja mente viaja a mil e um lugares, e muitos onde nunca pode antes pisar os pés. A antecipação, a ideia de um futuro possível, os erros passados, todos esses sentimentos impetuosos fazem companhia à mente desperta. Ela, e digo ela pois a insônia é uma dama, é perturbadora, voraz, e insaciável em sua fome, até que enfim consuma todo o pensamento, toda a lógica e toda a sensatez, deixando apenas loucura em seu lugar, ela não finda em seu banquete, e minha mente ultimamente tem estado repleta de pensamentos para que ela possa se deliciar.          Já fazem duas noites que não consigo pregar meus olhos quando me deito, e três noites desde que fui encarcerado. Foi na noite passada que vi o cão, e de lá pra cá, talve...