Pular para o conteúdo principal

Ode a Fátima

 São poucas as coisas na vida que parecem realmente deixar uma marca, e aqui digo uma boa marca, porque em verdade são muitas as coisas na vida que deixam aquele gosto ruim na boca, que nos colocam pra baixo, que vão embora deixando para trás aquela memória de péssimo tom que, infelizmente, te assombrará pelo resto de sua breve eternidade em seu próprio corpo. São realmente poucas as boas memórias, e mais raras que elas são as boas pessoas que as causam, aquelas que, tal como as marcas, fazem questão de te acompanhar em cada um de seus caminhos, por mais complicados que sejam. Boas pessoas, amigos. 

    Em nossas peregrinações diárias estamos fadados a encontrar inúmeros outros malditos que estão sofrendo do dom da vida, e sofrem cada um de seu jeito, alguns se deixando levar pela monotonia da semana de cinco dias, da repetição do trabalho, da tribulação da incompletude das coisas, e outros que lutam contra a imparcialidade do comum e sucumbem totalmente à loucura. Dos primeiros eu sinto uma enorme pena, dos outros eu busco as mais sinceras opiniões e conselhos. A partir do momento que você passa a enxergar as linhas invisíveis que tecem a nossa realidade, rearranjar o mundo para que pareça um pouco mais divertido deixa de se tornar um passatempo e passa a ser o seu objetivo, e quando percebemos que existem outros maníacos fazendo a mesma coisa tendemos chamá-los de amigos. 


Andréa Beltrão como Sueli e Fernanda Torres como Fátima em Tapas e Beijos (2011-2015)

    Se Tapas e Beijos nos ensinou alguma coisa, e Deus, eu espero que tenha ensinado, é que a presença de uma pessoa em nossas vidas que seja capaz de acompanhar cada um de nossos surtos psicóticos e recaídas absurdas, momentos de euforia e vontades extremas e insaciáveis, não é opcional, é uma necessidade. Precisamos de alguém que possa nos olhar de ponta a ponta e com um movimento de cabeça transparecer todas as coisas que pensou sobre nós naquele momento, alguém que consiga nos julgar em todos os aspectos sem nos reduzir a nada, mas nos engrandecendo em tudo, alguém que aponte nossos erros, mas jamais esqueça os nossos acertos, alguém que se preocupe, mas não nos sufoque, que entenda a nossa liberdade e ao mesmo tempo respeite as limitações, mesmo que saiba que nada é capaz de nos deter. Precisamos de nossa Fátima. 

    E sim, digo que precisamos de nossa Fátima pois dentro do cosmos infinito de minhas emoções eu me identifico um pouco mais com a Sueli, mas é inegável que a conexão que tenho com minha Fátima é única, especial, um alvoroço, e, claro, creio eu ser, para um ou outro louco por aí, uma versão de Fátima. A verdade é que eu não tenho nada além do que agradecer por cada um dos momentos, por cada uma das memórias criadas, pois mesmo entre as milhões de maldições que percorrem em minha cabeça, são sempre essas boas memórias que me salvam dos momentos de maior preocupação. Covarde seria eu de não perceber o quão sortudo sou, e seria ainda mais covarde se não tivesse comigo alguém corajoso o bastante para me dizer quando estou sendo um covarde. 

    "Somos todos um pouco estranhos, e a vida é um pouco estranha, e quando encontramos alguém cuja estranheza é compatível com a nossa, nos juntamos e caímos em um estado de estranheza mútua, e chamamos isso de amor" -Dr. Seuss 

    

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E Tomando um Gole, Ele Disse

Há quem diga que a verdade muda, que o tempo a corrompe, corrói, destrói, a torna um pouco mais alusiva, distante, quiçá até menos poderosa, mas, e digo mas porque não sei muita coisa, e no meu ato de desconhecer me sinto no dever de discordar, acredito eu que a verdade seja uma só, imutável, incorruptível e, acima de tudo, minha! Minha verdade é a de que estou cansado, e o cansaço do qual falo é aquele onde os óculos pesam a face, mas retirá-los causa uma imensa dor de cabeça, quase que do tamanho do cansaço. Trabalho e trabalho e o tempo me esvazia, sinto as dores me cercarem até me tornarem mais fraco, mais flexível. Quem sabe o trabalho faça o mesmo com a verdade. Quem sabe a verdade se canse. Hoje ouvi uma história, e quem sabe ela fosse sobre cansaço.      Do lado de fora chovia, e bem na porta um homem observava o lado de dentro do bar com receio em seus olhos, talvez um enorme arrependimento, mas claramente queria entrar, quem sabe até precisasse. O chamei, fiz qu...

(Prólogo a) Um Conto de Lobisomem

Decerto, existe uma simplicidade no ofício. Há algo de mecânico no operar do cérebro. Você move as peças de um lugar para o outro, repete os mesmos processos, às vezes muda os métodos, mas em suma e ao fim do dia, o trabalho continua sendo o mesmo. Mas temo, sim, na verdade eu morro em medo de que esse movimento, de que esse desdém que venho guardando dentro de mim, vá acabar matando minha boa vontade, tenho pavor do dia em que irei acordar e olharei para os livros, olharei para o quadro, para as mesas, as carteiras e pensarei comigo "para que?". Acredito, na verdade, que o dia é hoje, mesmo que a decisão não seja minha. Sinto mínima, dentro de minha pessoa, a intimidade com o prazer de ensinar e me pergunto se devo, se vale a pena me levantar dessa maldita cama, para fazer este maldito curto caminho, até aquele maldito pequeno prédio, para ter de lidar com aquelas brilhantes e inquietas mentes pensantes que eu, logo eu, jamais deveria chegar perto. Por Deus! Quem foi o maldi...

(Não é) Um Conto de Lobisomem

 A insônia faz coisas terríveis com a mente, não só do coitado insone que sofre com as noites em claro, mas também dos infelizes que o cercam e têm de ouvir os murmúrios incansáveis de um maldito atordoado que mal consegue se levantar, mas cuja mente viaja a mil e um lugares, e muitos onde nunca pode antes pisar os pés. A antecipação, a ideia de um futuro possível, os erros passados, todos esses sentimentos impetuosos fazem companhia à mente desperta. Ela, e digo ela pois a insônia é uma dama, é perturbadora, voraz, e insaciável em sua fome, até que enfim consuma todo o pensamento, toda a lógica e toda a sensatez, deixando apenas loucura em seu lugar, ela não finda em seu banquete, e minha mente ultimamente tem estado repleta de pensamentos para que ela possa se deliciar.          Já fazem duas noites que não consigo pregar meus olhos quando me deito, e três noites desde que fui encarcerado. Foi na noite passada que vi o cão, e de lá pra cá, talve...