Podre, incerto, exagerado em todos os meus aspectos, venho lutando contra um cem número de coisas já faz tanto tempo, que nem me lembro a última vez que descansei, a última vez que, enquanto esse pobre coitado que ainda sou, pude me deitar na minha própria cama para fechar os olhos e pensar somente naquilo que me interessava. Triste criatura, sofrendo amarga, perdida, mas repleta de rumos. Nobre perdedor, mas decerto não o único, disso eu sei, com certeza sei. Não sou poeta, não, tampouco entendedor da arte! Já a estudei, e muito, mas sempre pelos olhos de outros, nunca me debrucei na poesia, nem tentei escrevê-la, já li, bastante, Pessoa, Cesário, Andrade, Vitória, poetas, não eu, eu, eu não, não por mim mesmo, pelo menos. Na música já vi auxílio, já fiz, mas não a compreendo, não como outros, não como Adorno, Mercury, Mata, Lee, músicos, vozes vitoriosas, e eu aqui, perdedor.
Mas sinto que venci, de lá pra cá, voltei uma vez e me vi sorrindo e que susto tomei, preciso arrumar os dentes, claro, mas como fazia tempo que não sorria, criatura, e que bom que agora ri, que bom que teve esse sossego, por mais breve que tenha sido. Humores, não é? Que palavra, tão parecida com humano. Me senti vencedor, por um instante me vi no topo, comemorando, bobo, idiota, ridículo, apaixonado! Que bobo, que humano, que poeta, que cantora! E que longo esse sossego tem sido, que belo, que lindo, que específico, que incrível!
Se me estendesse a mão agora eu a aceitaria sem muito pensar duas vezes, não perguntaria nada, apenas torceria para que esse momento tão maravilhoso não se finda-se, que se permitisse ficar, mais quinze, vinte, ou trinta minutos, anos, quem sabe, pois é tão bom se deitar no sentimento, se sentir magnífico, vitorioso. Sinto que venci. Mas não é exagero acreditar em mim? Que não sou poeta, nem sossegado, que já fiz tanto, que já fui tão julgado. Pois, as vezes é bom exagerar.
Ontem sonhei que venci e o vencer era belo, o sonho era fantástico e o sono profundo, sonhei que era poeta, que escrevia, que era bom, que me vangloriava e me deitava cansado no final de um dia longo abraçado com o sossego, e o sossego me lembrava poesia, nunca me debrucei na poesia, mas gostaria de me deitar com ela.

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