Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2024

(Prólogo a) Um Conto de Lobisomem

Decerto, existe uma simplicidade no ofício. Há algo de mecânico no operar do cérebro. Você move as peças de um lugar para o outro, repete os mesmos processos, às vezes muda os métodos, mas em suma e ao fim do dia, o trabalho continua sendo o mesmo. Mas temo, sim, na verdade eu morro em medo de que esse movimento, de que esse desdém que venho guardando dentro de mim, vá acabar matando minha boa vontade, tenho pavor do dia em que irei acordar e olharei para os livros, olharei para o quadro, para as mesas, as carteiras e pensarei comigo "para que?". Acredito, na verdade, que o dia é hoje, mesmo que a decisão não seja minha. Sinto mínima, dentro de minha pessoa, a intimidade com o prazer de ensinar e me pergunto se devo, se vale a pena me levantar dessa maldita cama, para fazer este maldito curto caminho, até aquele maldito pequeno prédio, para ter de lidar com aquelas brilhantes e inquietas mentes pensantes que eu, logo eu, jamais deveria chegar perto. Por Deus! Quem foi o maldi...

(Talvez Seja) Um Conto de Lobisomem

Não estou acostumado, nem um pouco, com a ideia de finalidade, em todos os sentidos de sua polissemia, não consigo ver no fim das coisas o seu sentido, ou em seu sentido o fim. E digo isto porque olho para mim mesmo, e não consigo enxergar sentido, tampouco finalidade. Sou como um boneco, uma marionete guiada por fios imaginários, controlado por impulsos, vícios e uma série interminável de erros. Como alguém como eu poderia ter algo tão digno como um final? Algo tão precioso quanto um sentido? Creio que dádivas são dadas àqueles que atingem, de uma forma ou de outra, alguma espécie de lugar maior. Estes presentes são dados aos poucos que cortam suas cordas, tomam conta de suas histórias e enfim decidem fazer algo de verdadeira importância com suas vidas. Ah, como eu admiro tais almas, as que batalham todo dia para atingir o futuro que tanto sonham, como me ponho a mercê dessas brilhantes mentes que pensam e imaginam e criam, como tenho inveja de sua habilidade de se deitar e dormir, se...

(Ainda Não é) Um Conto de Lobisomem

Não sou paranoico, jamais diria ser paranoico, não! Sou metódico, sim, disso eu tenho total e completa consciência, e sendo eu uma pessoa consciente, como poderia, em mente sã, ser paranoico? Poderia até mesmo dizer que você é paranoico por me acusar de tal absurdo, mas quando digo você, na verdade aponto para mim mesmo, e tendo em vista tal digressão, talvez, de fato, a coisa mais sã fosse admitir que talvez eu sofra de certa paranoia. Mas não preciso fazê-lo em voz alta, é claro, minha mente metódica não o permitira, posso conviver com minhas próprias paranoias, posso conviver com minhas ansiedades e palpitações, posso conviver comigo mesmo dentro de minha própria cabeça, conversando com essa versão espelhada da minha pessoa, essa que sim, claramente, sofre de uma horrível paranoia, afinal, eu continuo são.      Tive meus problemas, claro, mas nenhum que causasse ao outro tanta angústia quanto consigo causar a mim mesmo, e se, em algum momento causei tal tipo de injúria...

(Não é) Um Conto de Lobisomem

 A insônia faz coisas terríveis com a mente, não só do coitado insone que sofre com as noites em claro, mas também dos infelizes que o cercam e têm de ouvir os murmúrios incansáveis de um maldito atordoado que mal consegue se levantar, mas cuja mente viaja a mil e um lugares, e muitos onde nunca pode antes pisar os pés. A antecipação, a ideia de um futuro possível, os erros passados, todos esses sentimentos impetuosos fazem companhia à mente desperta. Ela, e digo ela pois a insônia é uma dama, é perturbadora, voraz, e insaciável em sua fome, até que enfim consuma todo o pensamento, toda a lógica e toda a sensatez, deixando apenas loucura em seu lugar, ela não finda em seu banquete, e minha mente ultimamente tem estado repleta de pensamentos para que ela possa se deliciar.          Já fazem duas noites que não consigo pregar meus olhos quando me deito, e três noites desde que fui encarcerado. Foi na noite passada que vi o cão, e de lá pra cá, talve...