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(Ainda Não é) Um Conto de Lobisomem

Não sou paranoico, jamais diria ser paranoico, não! Sou metódico, sim, disso eu tenho total e completa consciência, e sendo eu uma pessoa consciente, como poderia, em mente sã, ser paranoico? Poderia até mesmo dizer que você é paranoico por me acusar de tal absurdo, mas quando digo você, na verdade aponto para mim mesmo, e tendo em vista tal digressão, talvez, de fato, a coisa mais sã fosse admitir que talvez eu sofra de certa paranoia. Mas não preciso fazê-lo em voz alta, é claro, minha mente metódica não o permitira, posso conviver com minhas próprias paranoias, posso conviver com minhas ansiedades e palpitações, posso conviver comigo mesmo dentro de minha própria cabeça, conversando com essa versão espelhada da minha pessoa, essa que sim, claramente, sofre de uma horrível paranoia, afinal, eu continuo são. 

    Tive meus problemas, claro, mas nenhum que causasse ao outro tanta angústia quanto consigo causar a mim mesmo, e se, em algum momento causei tal tipo de injúria, sinto muito, mas creio que fosse merecido. Admito não ser boa pessoa, mas não posso, sob hipótese alguma, deixar que minha imagem seja rebaixada ou elevada para além daquilo que sou: Um canalha! Não sou um charlatão, mas também não sou exemplo algum, sou apenas isso que descrevo ser, um beberrão, um coitado, um qualquer, e em uma vida passada ou duas, se a lua não mente para mim, creio ter sido um professor. Sim, costumava ministrar aulas no colégio da cidade até que minhas digressões, e as paranoias do outro eu, entrassem em meu caminho, não que a bebida não tivesse envolvimento, ela sempre teve, mas não foi a causa, longe disso, era muito mais o meu remédio. Mas se não fosse por sua culpa (e sim culpo-a ao invés de mim mesmo, pois tinha toda a intenção de permanecer sóbrio além das três garrafas), não teria parado naquela maldita cela, observando aquela infeliz janela, por onde vi a temível imagem da morte, com seus olhos profundos, orelhas enormes e dentes que poderiam romper a rocha da parede que me guardava. 

    É estranha a sensação da liberdade nesse momento, pois sinto injustificada minha saída, fui capaz de causar problemas por toda uma noite e o que recebo são apenas alguns dias de encarceramento? Encarceramento esse onde fui melhor tratado do que sou por mim mesmo. Reclamei, claro, da água e do pão, mas não por serem ruins, mas puramente pelo fato de eu não deixar de ser um canalha, mesmo quando tratado como um ser humano. Mas ainda acho assombroso, fazer o que fiz, manter acordadas tantas famílias, vadiar e destruir as janelas daqueles que me foram malditos, porque eu, não tão são naquele momento, deixei que a insônia em sua força se unisse a embriaguez, que tanto me enfraquece. E que dupla formaram. Mas de novo me perco, não é esse o meu ponto. Estou livre, sinto o sol em minha cabeça antes de cobri-la com o chapéu, enxergo turvo os movimentos da rua antes de limpar os óculos, e, por fim, sinto a dor do nariz quebrado agora que o analgésico do alcoolismo, deixando-me momentaneamente, permite que uma mente sóbria tome conta de meus sentidos e percepções. Estou livre, com dor, porém livre, e é dia, mas a noite há de chegar, e com ela a dama, e a acompanhado, a fera. 

    Tenho meus próprios caminhos, lugares onde meu nome é falado, lugares em que meu rosto facilmente se reconhece, e estes são os que costumo evitar, como uma praga os mantenho longe, pois, tal como a praga, sei que acompanham problemas que eu, mesmo agora, não teria saúde o suficiente para aguentar. Ao mesmo tempo, nos lugares em que não me conhecem, ninguém, nem o pior dos bêbados, pois eu não sou o pior, acreditaria em mim se eu entrasse e contasse em detalhes o que vivi dentro daquela cela, se contasse sobre a fúria cega do demônio que paira sob o véu noturno e sobre a areia batida. Ainda é manhã, ainda é cedo, é dia, não tenho o que temer, não preciso pensar em nada disso, mas algo dentro de mim não deixa com que se escape a imagem da sombra que parecia me cercar. E parado ali, sem sair do lugar, brilhou em minha débil mente a possibilidade de não contar absolutamente nada do que me acontecera, pois sim, duvidariam das palavras de um louco, mas, e isso poderia ser um risco, talvez não se enlouquecessem a partir das dúvidas de um bêbado. 

    Havia um bar próximo a delegacia, e digo próximo para não dizer colado a ela, e dentro daquelas paredes de madeira um sem números de desgraçados se apoiavam nas mesas e no balcão, escorados em suas cadeiras, prestes a cair, fosse de sono ou insensatez. Não sabia dizer se tinham acabado de chegar, ou se beberam desde a noite até o amanhecer do dia, mas seja lá qual fosse a resposta, minha pergunta era outra. Sentado de frente ao servente indaguei sobre as noites que antecederam aquele nascer do sol, "alguma notícia? algo estranho acontecendo? ouviu algum rumor?", questionamentos esses que só me fizeram parecer um estranho, ou quiçá um caçador de recompensas (e gostaria de ser o último), mas ouvi, ouvi do homem à minha frente que as últimas luas tinham sido sangrentas, que a cidade estava sim em desespero, que algum mal havia tomado conta do entardecer e que as ruas já não se movimentavam quando as estrelas tomavam conta do céu. "Alguém tem levado galinhas, bezerros, ovelhas", me disse o rapaz, e acrescentou que "mesmo com as patrulhas noturnas, ninguém sabe quem é o responsável", mas eu sabia, em meu âmago eu tinha toda a certeza que não havia alguém, mas sim alguma coisa a realizar o trabalho do demônio em nossas terras. O cão espreitava, estava caçando, faminto, acompanhado da dama, sofrendo sua própria espécie de insônia, mas tal como eu sabia de si, ele sabia que eu o tinha visto, sabia que eu havia encarado sua face, e talvez tivesse sido o único animal respirando que olhou seus profundos olhos amarelos e pode continuar com a tez intacta. A sanidade me deixou por um instante, e a paranoia se apoderou de mim. No reflexo do copo que eu já não lembrava de ter pedido, eu pude ver aprisionado o meu eu pensante, pois agora tinha uma certeza absurda de que a criatura tinha um alvo a mais em sua lista: eu.  

    Cambaleei para o lado de fora sem primeiro notar que algumas horas já haviam se passado, mas o sol acima de mim me deu a certeza que o dia já chegara na metade. Não sabia atribuir meu atual desespero à paranoia ou ao meu estado ébrio, quem sabe fosse uma junção de ambos. Se minha insônia poderia unir forças com meu coração ansioso, o que impedia minha mente já tenebrosa de se aliar com o néctar capaz de palavras que trazem nada além de ruína ao homem que as emitem, e eu sei que já havia proferido algumas delas. A insanidade momentânea que a embriaguez traz é de um conforto quase maternal, o girar do mundo quando se fecham os olhos sempre o levam de volta para sua própria cama, para o conforto, mas minha infeliz realidade era a de que a cama do encarceramento era mais afável do o que a minha própria. Neste estado, inquietante e repleto de rubor, realizei meu caminho a passos que me pareciam largos, mas a qualquer um que os avistasse eram mancos e incertos, até chegar ao barraco em que me retirava quando não conseguia ser detido pela guarda. Casa. Como alguém poderia chamar meio cômodo de casa? A resposta é "com a boca". Mas o seu simbolismo pouco me importava, a possibilidade de deitar e olhar meu próprio teto apeteceu por um breve instante o meu corpo mais que exausto, mas não era descanso o que procurava, e sim a espingarda que guardava debaixo do conjunto de molas e feno que chamava de colchão. Me armei e preparei minha munição, enrolei em folha meu próprio tabaco e o mantive aceso até que queimasse os lábios pois precisava me manter desperto, mesmo que ainda faltassem horas para o chegar da noite, sabia que teria de enfrentar o inferno quando viesse, mas nenhum dos meus esforços pode impedir o cansaço, nem a própria dama, e por uma hora eu me deixei cair em um sono que me levou ao pior dos pesadelos. O monstro me perseguia entre corredores infinitos, em nenhuma das saídas eu era capaz de encontrar a chave, a morte me aguardava de uma forma ou de outra, e independente de como viria, eu teria de enfrentá-la. Despertei, não menos cansado do que antes, e ainda duvidando da ideia de que tivesse de fato me recolhido no sonhar, mas agora tinha uma certeza maior do que qualquer outra: a fera poderia bem me considerar um alvo, mas também havia se tornado o meu. 

    Assim que o sol deixou de iluminar meu casebre, soube que precisava agir. Abri a porta e vi ao longe o pôr de minha segurança, e vindo do outro lado o sinal de meu medo. Era hora de caçar, fosse eu a presa ou o caçador.  

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