Não estou acostumado, nem um pouco, com a ideia de finalidade, em todos os sentidos de sua polissemia, não consigo ver no fim das coisas o seu sentido, ou em seu sentido o fim. E digo isto porque olho para mim mesmo, e não consigo enxergar sentido, tampouco finalidade. Sou como um boneco, uma marionete guiada por fios imaginários, controlado por impulsos, vícios e uma série interminável de erros. Como alguém como eu poderia ter algo tão digno como um final? Algo tão precioso quanto um sentido? Creio que dádivas são dadas àqueles que atingem, de uma forma ou de outra, alguma espécie de lugar maior. Estes presentes são dados aos poucos que cortam suas cordas, tomam conta de suas histórias e enfim decidem fazer algo de verdadeira importância com suas vidas. Ah, como eu admiro tais almas, as que batalham todo dia para atingir o futuro que tanto sonham, como me ponho a mercê dessas brilhantes mentes que pensam e imaginam e criam, como tenho inveja de sua habilidade de se deitar e dormir, sem inquietações, apenas abraçados em seus objetivos, seus sentidos, suas finalidades.
Hoje irei de encontro ao meu algoz, e encontrarei o meu fim, mas há, e é ainda mais certa do que essa esperança que tenho, a possibilidade que meu fim me encontre primeiro. O pôr do sol trouxe consigo o nascer da lua, e o entardecer trouxe o escuro. Nuvens cobriam o céu, o vento sibilava uma canção que já há algum tempo não cantava. Primeiro o frio, depois a precipitação e, por último, a neve, pouca, mas o suficiente para ser sentida. Como foi rápido o anoitecer, como foi estúpida minha decisão de me armar e ir ter com a fera, como é gelada a noite, como seriam belas as estrelas se não estivessem cobertas de densa escuridão, como seria eu capaz de vencer a batalha em que me encontrei? Não sei ao certo, mas era o que eu precisava fazer, me mantendo em prontidão, observando de cima, com olhos cansados, óculos embaçados e a sombra do chapéu tapando minha fronte, qualquer tipo de movimento estranho que fosse semelhante à criatura. Mas nada. Nada veio. Por uma hora, nada veio. Apenas neve, pesando sobre minha cabeça, cobrindo aos poucos os meus pés, tornando o chão escorregadio e fazendo com que fosse ainda mais fácil se enxergar uma trilha, caso alguém (ou alguma coisa) fosse estúpido o bastante para deixá-la. Ouvi o guinchar de um porco perdendo a vida, era hora.
Fiz devagar o caminho de minha casa até à frente da cidade e observar a rua central vazia fez com que minha respiração se tornasse ainda mais acelerada. Sozinho, eu estava completamente sozinho, ao belo prazer da besta. As luzes eram poucas, a neve já havia apagado algumas e outras, creio nem terem sido acesas. De dentro de algumas casas, quanto mais acima a lua se colocava, mais intensa a luz das velas se tornava, e menos presentes as silhuetas de meus conterrâneos passando a frente de suas janelas. Se tornaria uma bela pintura, se alguém se atrevesse sair e fazê-la naquele instante, mas só um louco se colocaria para fora do conforto do lar para abdicar de um momento como esse. Ouvi mais uma vez o barulho de morte. Segui em passos cuidadosos o som até me ver de frente o celeiro, as portas dianteiras trancadas, e o caminho ao redor, para o cercado, completamente forrado de uma espessa camada de terra e neve. Com a espingarda levantada e arrepios que iam até minha nuca, fiz a passagem para os fundos do prédio, apenas para encontrar um rastro de sangue seguindo para a mata densa, o lugar de onde eu primeiro vi sair o monstro, quiçá sua morada. Tolo eu, invadindo a casa da criatura, mas tola também foi ao invadir minha mente e se aposentar nos cômodos mais profundos de meus medos. Não fosse o já tão relevante andar de minha breve aventura, eu teria voltado para casa, desistido, mas algo em minha medíocre experiência enquanto ser humano tinha de ser, de alguma forma, frutífera. Ainda arrepiado, adentrei o mato.
Acredito não ser o único que já tomou decisões precipitadas baseando-se apenas em sua própria impulsividade e um infinito medo, adiciono ainda acreditar na ideia de que, em minha posição, qualquer um outro teria feito a mesma coisa, mas creio que isso seja apenas uma forma de tentar conformar minha mente insana a um lugar um pouco menos assustador e que não faça com que minhas mãos tremam tanto, se bem que poderia atribuir isso ao frio ao invés da minha falta de coragem. Fui seguindo a trilha de sangue e as pegadas profundas deixadas na neve, indistintas patas quase humanas e o que parecia ser uma carcaça sendo arrastada pelo pescoço. Eu sabia o que iria encontrar, e sabia que teria de ser rápido e decisivo com seja lá o que fosse minha reação. Apenas quatro tiros na espingarda. Cada um deles tem de contar. Quanto mais eu andava, menos sangue era visível na neve, mais denso era o mato, e mais forte era o cheiro da morte, e quando finalmente pude enxergá-la, era horrível, muito pior do que acreditei ser, muito mais monstruosa em suas ações, muito mais humana em sua aparência. Não era um porco, era um garoto, aquilo que escutei não era um guincho, foi o grito abafado de uma criança. O frio deixou meu corpo, pois meu sangue passou a ferver. Meus olhos tomaram foco na besta e engatilhei a arma apontando para sua cabeça, mas o demônio, em sua genialidade, decidiu vir à Terra com muito mais astúcia do que necessário. Com um desviar rápido, o cão correu e meu tiro resvalou em uma pequena árvore, atravessando seu tronco e indo de encontro com o chão. Fui até o corpo e pude reconhecer o menino como um de meus alunos, ex-alunos, em mais de um sentido. Que descansasse em paz, pobre criatura. Segui o monstro.
Com a arma em punhos e a fera em vista, passeando por entre a densa mata coberta de neve, vi aquela criatura sem alma levantar-se e se tornar ainda maior, com suas orelhas altas e os olhos amarelos, a boca ainda coberta de sangue, me encarando com o que parecia ser... um sorriso. Mais uma vez atirei contra aquilo, e escutei o rasgar de carne, e um som gutural de dor. Havia o acertado, mas decerto não fatalmente, pois o mato voltara a se mexer. Abri a espingarda e a recarreguei o mais rápido que pude, mas antes mesmo de conseguir fechar a arma senti peso sobre meu corpo, e senti pressão sobre minha pele, um rasgo em minhas roupas, minha carne, meu sangue se espalhando pela neve, junto com o da fera. Tinha sido rápido demais para que eu pudesse ver exatamente o que tinha feito comigo, só sei que a dor, aquela maldita dor, foi o bastante para me manter acordado e longe do sono que procurava me cegar. Apoiado na arma me levantei, e me afastando da mata fui com minhas costas apontadas em direção ao meu casebre. Enquanto a mata se mexia, e as luzes da cidade despertavam aos sons dos tiros. Gritos de dentro de uma das casas. Senhorita Elizabete percebera o desaparecimento do filho. Gostaria de poder desejá-la condolências, um abraço, prometer apertando sua mão que traria vingança a ela, mas naquele instante era muito mais fácil realizar explicações depois do feito, do que promessas antes de minhas atitudes. Mais uma vez o demônio se mostrou, e mais uma vez atirei. Vísceras foram ao chão e o cão se lançou sobre mim, com os dentes pesados em meu ombros e as garras presas às minhas costas. Ainda com a arma em mãos, não tive outra opção além de atirar. O estalido da espingarda me ensurdeceu, a fumaça da pólvora me cegou, o cheiro de queimado enganou meus sentidos para que eu não notasse que também havia ido de encontro com o chão. À minha vista, a fera agonizava, sangrando, manchando o branco da neve de vermelho, invadindo o chão profundo com sua maldade, regando as ervas com seus crimes, agora pagos com sua vida, estava lá, espelhada a mim, minha fera, minha insônia, minha dama, meu lobisomem. Meus olhos se enfraqueceram ao mesmo tempo que o xerife se aproximava de meu corpo. Gostaria de ser preso, se possível, me deitar naquela cama, tão mais confortável que a minha, olhar para aquele teto, tão mais aprazível que o meu, sentir o calor da lamparina, tão mais poderoso que o de minha vela, encontrar naquele espaço finalidade, um motivo, uma razão, um sentido para tudo isso. Mas já não sentia mais nada, nada além do sono, e a neve era minha cama, a lua a minha lâmpada e o véu noturno o meu cobertor. É engraçado, agora, olhando bem, a fera tinha o rosto do prefeito.

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