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(Não é) Um Conto de Lobisomem

 A insônia faz coisas terríveis com a mente, não só do coitado insone que sofre com as noites em claro, mas também dos infelizes que o cercam e têm de ouvir os murmúrios incansáveis de um maldito atordoado que mal consegue se levantar, mas cuja mente viaja a mil e um lugares, e muitos onde nunca pode antes pisar os pés. A antecipação, a ideia de um futuro possível, os erros passados, todos esses sentimentos impetuosos fazem companhia à mente desperta. Ela, e digo ela pois a insônia é uma dama, é perturbadora, voraz, e insaciável em sua fome, até que enfim consuma todo o pensamento, toda a lógica e toda a sensatez, deixando apenas loucura em seu lugar, ela não finda em seu banquete, e minha mente ultimamente tem estado repleta de pensamentos para que ela possa se deliciar.
        Já fazem duas noites que não consigo pregar meus olhos quando me deito, e três noites desde que fui encarcerado. Foi na noite passada que vi o cão, e de lá pra cá, talvez me falhe a memória, sinto que não andava como deveria, estava de pé. Talvez por isso o tenha pensado como um demônio, talvez por isso tenha o visto com fome, pois a figura que de relance chamou minha atenção meio acordada era uma mistura, tinha todas as feições de um animal, mas o porte de um homem, um ser infernal, maldito, horroroso, faminto... a fome, seria minha? Tenho comido pão e água, e pouco de ambos consigo digerir, meu estômago tem me matado, e auxilia minha dama nas noites acordado, ele ronca em barulhos malditos  que para ela soam como música, e para mim, soam como grunhidos, os grunhidos da besta. Agora que é dia eu observo pelas barras da janela se vejo algo semelhante, se algum arbusto poderia ter voado com o vento, se algum dos cachorros tem andado solto, se uma criatura meio homem meio cão se mudou para a cidade nos últimos dias, trazendo consigo um cabriolé por onde vende leite de rosas e especiarias. Não, não, me confundo, uma fera jamais faria isso, mas talvez o diabo pudesse. O véu noturno toma conta do céu e não sinto sono. Mais uma vez estarei vítima da noite, a mercê de minha imaginação, nas mãos da dama, nos dentes da fome e sob o olhar da criatura, se é que há uma.

        Deito, sabendo não poder dormir, mas me deito mesmo assim. Minha cela é pequena, as paredes estreitas, a cama não me traz qualquer tipo de conforto e indago se seria melhor me deitar sobre o taco que cobre o chão, mas ao menos o calor da palha que preenche o colchão é melhor que o frio que sinto nas solas dos pés sempre que me levanto, e por muitas vezes eu me levanto, imaginando ser manhã e me deparando com o luar. Não entendo o porquê de fazê-lo, não é como se as coisas fossem mudar, não é como se, de repente, a exaustão fosse me envolver e com um golpe apenas me levar ao chão, um chão do qual me levantaria, afinal, é frio. A noite é fria. Como... Como a fera se sentiria nesse frio? Eu tenho o calor de uma lamparina, digo, não é minha, e não está próxima, mas ilumina boa parte do corredor que também consigo ver pelas barras. Eu estou aqui por razão, não é como se pudesse reclamar, mas, e se minha mente não estiver errada? E se de fato houver um animal, ou seja lá o que for o vulto, do lado de fora, passando, correndo, caçando, eu... Maldição, o vi de novo. 
    Talvez não. Temo. E a minha dama se alia ao medo, e o medo se alia à esse sentimento ansioso que salta do meu peito, e entre as palpitações tento recuperar o fôlego, tento gritar por ajuda, por alguém, por um guarda, mas as palavras não conseguem sair de minha boca, e se saíssem o que eu falaria? Um bêbado preso por vadiagem gritando em frangalhos, de dentro de uma cela, avisando a quem se dispor de ouvir, que, lá fora, além de sua janela, existe um demônio tentando entrar. Sim, claramente acreditariam em mim. Mas e se a fera realmente estiver ali? E se o cão for um perigo? E se estiver com fome? E se eu pudesse simplesmente me deitar e dormir? Inferno! Pense direito, por um segundo pense direito, olhe para trás, enxergue a verdade, veja o seu monstro. Me viro, meus olhos ardem, minhas pálpebras se fecham, e delas, lágrimas se soltam, uma atrás da outra, e um calor toma meu rosto até que eu finalmente consiga enxergar. Por Deus, é manhã, e a mim não me apetece mais o sono, apenas o sentimento de que lá fora, além dessas paredes, não estou seguro. O carcereiro abre minha cela. Tenho que ir. 


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