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E Tomando um Gole, Ele Disse

Há quem diga que a verdade muda, que o tempo a corrompe, corrói, destrói, a torna um pouco mais alusiva, distante, quiçá até menos poderosa, mas, e digo mas porque não sei muita coisa, e no meu ato de desconhecer me sinto no dever de discordar, acredito eu que a verdade seja uma só, imutável, incorruptível e, acima de tudo, minha! Minha verdade é a de que estou cansado, e o cansaço do qual falo é aquele onde os óculos pesam a face, mas retirá-los causa uma imensa dor de cabeça, quase que do tamanho do cansaço. Trabalho e trabalho e o tempo me esvazia, sinto as dores me cercarem até me tornarem mais fraco, mais flexível. Quem sabe o trabalho faça o mesmo com a verdade. Quem sabe a verdade se canse. Hoje ouvi uma história, e quem sabe ela fosse sobre cansaço.      Do lado de fora chovia, e bem na porta um homem observava o lado de dentro do bar com receio em seus olhos, talvez um enorme arrependimento, mas claramente queria entrar, quem sabe até precisasse. O chamei, fiz qu...
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(Prólogo a) Um Conto de Lobisomem

Decerto, existe uma simplicidade no ofício. Há algo de mecânico no operar do cérebro. Você move as peças de um lugar para o outro, repete os mesmos processos, às vezes muda os métodos, mas em suma e ao fim do dia, o trabalho continua sendo o mesmo. Mas temo, sim, na verdade eu morro em medo de que esse movimento, de que esse desdém que venho guardando dentro de mim, vá acabar matando minha boa vontade, tenho pavor do dia em que irei acordar e olharei para os livros, olharei para o quadro, para as mesas, as carteiras e pensarei comigo "para que?". Acredito, na verdade, que o dia é hoje, mesmo que a decisão não seja minha. Sinto mínima, dentro de minha pessoa, a intimidade com o prazer de ensinar e me pergunto se devo, se vale a pena me levantar dessa maldita cama, para fazer este maldito curto caminho, até aquele maldito pequeno prédio, para ter de lidar com aquelas brilhantes e inquietas mentes pensantes que eu, logo eu, jamais deveria chegar perto. Por Deus! Quem foi o maldi...

(Talvez Seja) Um Conto de Lobisomem

Não estou acostumado, nem um pouco, com a ideia de finalidade, em todos os sentidos de sua polissemia, não consigo ver no fim das coisas o seu sentido, ou em seu sentido o fim. E digo isto porque olho para mim mesmo, e não consigo enxergar sentido, tampouco finalidade. Sou como um boneco, uma marionete guiada por fios imaginários, controlado por impulsos, vícios e uma série interminável de erros. Como alguém como eu poderia ter algo tão digno como um final? Algo tão precioso quanto um sentido? Creio que dádivas são dadas àqueles que atingem, de uma forma ou de outra, alguma espécie de lugar maior. Estes presentes são dados aos poucos que cortam suas cordas, tomam conta de suas histórias e enfim decidem fazer algo de verdadeira importância com suas vidas. Ah, como eu admiro tais almas, as que batalham todo dia para atingir o futuro que tanto sonham, como me ponho a mercê dessas brilhantes mentes que pensam e imaginam e criam, como tenho inveja de sua habilidade de se deitar e dormir, se...

(Ainda Não é) Um Conto de Lobisomem

Não sou paranoico, jamais diria ser paranoico, não! Sou metódico, sim, disso eu tenho total e completa consciência, e sendo eu uma pessoa consciente, como poderia, em mente sã, ser paranoico? Poderia até mesmo dizer que você é paranoico por me acusar de tal absurdo, mas quando digo você, na verdade aponto para mim mesmo, e tendo em vista tal digressão, talvez, de fato, a coisa mais sã fosse admitir que talvez eu sofra de certa paranoia. Mas não preciso fazê-lo em voz alta, é claro, minha mente metódica não o permitira, posso conviver com minhas próprias paranoias, posso conviver com minhas ansiedades e palpitações, posso conviver comigo mesmo dentro de minha própria cabeça, conversando com essa versão espelhada da minha pessoa, essa que sim, claramente, sofre de uma horrível paranoia, afinal, eu continuo são.      Tive meus problemas, claro, mas nenhum que causasse ao outro tanta angústia quanto consigo causar a mim mesmo, e se, em algum momento causei tal tipo de injúria...

(Não é) Um Conto de Lobisomem

 A insônia faz coisas terríveis com a mente, não só do coitado insone que sofre com as noites em claro, mas também dos infelizes que o cercam e têm de ouvir os murmúrios incansáveis de um maldito atordoado que mal consegue se levantar, mas cuja mente viaja a mil e um lugares, e muitos onde nunca pode antes pisar os pés. A antecipação, a ideia de um futuro possível, os erros passados, todos esses sentimentos impetuosos fazem companhia à mente desperta. Ela, e digo ela pois a insônia é uma dama, é perturbadora, voraz, e insaciável em sua fome, até que enfim consuma todo o pensamento, toda a lógica e toda a sensatez, deixando apenas loucura em seu lugar, ela não finda em seu banquete, e minha mente ultimamente tem estado repleta de pensamentos para que ela possa se deliciar.          Já fazem duas noites que não consigo pregar meus olhos quando me deito, e três noites desde que fui encarcerado. Foi na noite passada que vi o cão, e de lá pra cá, talve...

Mas que Caspita!

 Sinceramente, estou com raiva. Do que? Deus há de saber, porque eu decerto não sei, e olha que sei de muitas coisas, mas ultimamente tenho andado tão perplexo e injuriado com minha própria mente que falho constantemente em percebê-la. Está aqui, quase intacta, perfeitamente usada e em terríveis ótimas condições, boa o suficiente para funcionar dentro de meu corpo que não é bom o bastante para tê-la, e disso tire suas próprias conclusões. O ponto é que estou fulo! Por que? Como eu bem disse, Deus há de saber, mas eu? Eu me encontro vítima de mim, de minha fúria, chora ó deusa a cólera do pobre coitado que sou, que tanta morte trouxe a si mesmo, que tanto ódio infundado deixou à tona com suas palavras inflamadas. Falho finito filho de finados. Me engano, no caso, minha mente me engana, luta contra mim, maldita criatura sedentária, me faz cruel, frenético, exigente, certo estava Cesário Verde, pois me vejo agora maluco, insano, doente.      Falha introdução. Certo, me ...

Quem Sabe Venci

Podre, incerto, exagerado em todos os meus aspectos, venho lutando contra um cem número de coisas já faz tanto tempo, que nem me lembro a última vez que descansei, a última vez que, enquanto esse pobre coitado que ainda sou, pude me deitar na minha própria cama para fechar os olhos e pensar somente naquilo que me interessava. Triste criatura, sofrendo amarga, perdida, mas repleta de rumos. Nobre perdedor, mas decerto não o único, disso eu sei, com certeza sei. Não sou poeta, não, tampouco entendedor da arte! Já a estudei, e muito, mas sempre pelos olhos de outros, nunca me debrucei na poesia, nem tentei escrevê-la, já li, bastante, Pessoa, Cesário, Andrade, Vitória, poetas, não eu, eu, eu não, não por mim mesmo, pelo menos. Na música já vi auxílio, já fiz, mas não a compreendo, não como outros, não como Adorno, Mercury, Mata, Lee, músicos, vozes vitoriosas, e eu aqui, perdedor.      Mas sinto que venci, de lá pra cá, voltei uma vez e me vi sorrindo e que susto tomei, prec...